O inevitável clima revivalista preparado para rever os ídolos do Primal Scream em turne apresentando ao vivo sua obra de maior destaque, o disco Screamadélica, que havia completado exatos 20 anos de lançamento no dia anterior, no HSBC em São Paulo era proporcional a expectativa (e a faixa etária) do público presente. Boa parte dos fãs alí presenciaram a avalanche que o album de 1991 causou na época, uma espécie de resposta britânica (ao lado do shoegaze e o britpop) ao furacão grunge que assolava o rock mundial a partir de Seattle (cujo magnum opus Nevermind também comemora as bodas de platina na mesma semana). Mas enquanto o noroste americano unia metaleiros e punks sob a mesma camisa de flanela xadrez, o Primal Scream liquidificou a pura psicodelia dos anos 60, os tempos aureos dos Rolling Stones e toda a efervescência da Detroit de MC5, Motown e Stevie Wonder com elementos (e aditivos) até então limitados às pistas de danças e raves, dando vazão uma obra ímpar, viciante e sem dúvida uma das criações mais influentes dos últimos 20 anos do lado de lá do Atlântico.![]() |
| Bobby Gillespie |
"Vocês estão prontos para testemunhar?", questiona Bobby Gillespie, encarnando o mestre de cerimônias responsável pelo ritual daquela noite, ainda sem muita emoção, numa entrada que parecia protocolar, ensaiada a exaustão. Mas bastaram os primeiros refrões do hit "Movin' On Up" cantados pelos fãs para a banda perder a rigidez e ganhar o público. Num cenário sem firulas, o único efeito eram as imagens projetadas na banda e na tela gigantesca que abrangia todo o fundo do palco.
Samples e sirenes anunciam a batida contagiante de "Slip Inside This House", o primeiro embate da psicodelia com o eletrônico. Bobby então entrega a direção do palco a Mary Pierce, que impressiona na performance e na levada soul dos vocais praticamente impecáveis de "Don't Fight It, Feel It", originalmente cantada por Denise Johnson no album de estúdio.
Na sequencia Bobby retoma a condução dos vocais e, de olhos fechados e com muita emoção, canta a felicidade de todos ao som de "Damaged". A balada "I'm Comin' Down" seguem o ritmo introspectivo do momento. Sob novas sirenes e mais colagens sonoras, Bobby deixa o palco para o ex-Stone Roses Mani no baixo, os guitarristas Andrew Innes e Barrie Cadogan, além de Darrin Mooney na percussão comandarem a instrumental "Inner Flight".
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| Bobby Gillespie |
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| Andrew Innes |
E quando se pensava que a banda estivesse cansada após a execussão do album clássico, eles retornam para um bis com as nervosas Country Girl, Jailbird e Rocks, composições posteriores ao Screamadelica, incrivelmente detonadas em ritmo ainda mais eletrizante e enfurecido. Nem parecia que o grupo já havia tocado por quase uma hora e meia.
Numa noite que foi mais do que uma simples celebração nostalgica, o Primal Scream demonstrou que além de uma obra prima, o Screamadelica continua soando como novo, intacto e de inegável importância ainda hoje. Um divisor de águas que certamente ainda será trilha sonora para as novas gerações.
- Outras fotos no flickr de Alessandra Luvisotto












