The Jon Spencer Blues Explosion @ Bourbon Street, 28/07/2011

Celebração. Se pudesse resumir em uma só palavra o que Jon Spencer e seus comparsas cometeram na última quinta-feira (28 de julho) no Bourbon Street Music Club em São Paulo, esta talvez fosse a que melhor se encaixaria.

Casa cheia, porém sem esgotar os ingressos, que chegaram a salgados 180 reais na noite do show (a primeira leva já custava 120 reais). Pouco depois das 23h, horário programado para o início, os nova-iorquinos adentraram o pequeno palco da casa.
The Jon Spencer Blues Explosion
Jon Spencer
Jon Spencer é um monstro em cima do palco. Em meio a caras e bocas, convoca todos para sua festa particular, esbravejando seus "Blues Explosion" como um mantra que parece evocar todos os espíritos garageiros. O fato é que Link Wray e Lux Interior de alguma forma estavam alí. Seja com sua guitarra, theremin, gaita ou mesmo seu pedal de distorção e amplificador, Jon debocha de qualquer previsão a seu respeito, até a mais óbvia que apostava que ele estaria 10 anos mais velho desde a última passagem do trio no Brasil, lá pelos idos de 2001 (embora ele tenha visitado São Paulo com seu duo rockabilly Heavy Trash há 2 anos). Observando Mr. Spencer em ação, fica claro que o tempo para ele não passou.

Na outra ponta do palco, Judah Bauer empunha a outra guitarra, bem mais contido, distribuindo esparsos sorrisos e acenos para o público, preferindo se concentrar na parte que lhe cabe do ruído e distorções. Enquanto isso, entre os amplificadores, um irredutível Russell Simins se derrete em suor, em uma simbiose com sua bateria, que é incessantemente maltratada.

The Jon Spencer Blues Explosion
Russell Simins e Jon Spencer
O retorno ao Brasil coincide com a reedição dos principais albuns da carreira (de audições obrigatórias: Extra Width, Orange, Acme e Now I Got Worry) além do lançamento da coletânea Dirty Shirt Rock'n'Roll, que abrange pérolas dos primeiros 10 anos da banda - que aliás está completando singelas duas décadas de existência. E o repertório apresentado no show de São Paulo fez questão de revisitar a maior parte da obra do grupo. O show transcorre numa sequência sem descanso. "Money Rock'n'Roll", "Very Rare", "Sweat" (video abaixo), "Blues X Man" e "Sweet N Sour" são alguns dos petardos escolhidos, tocados praticamente sem intervalo entre uma música e outra.


Depois de um intervalo de alguns minutos, a banda volta para a segunda parte no mesmo pique. Logo de cara, o hino niilista "My War" do Black Flag - uma das pedras fundamentais do lamaçal de onde emergiria o grunge - é destroçado em forma de punk blues. E mal Jon termina de berrar os versos finais, uma nova canção já se inicia, num ritmo que continua frenético. Até que a devastadora sequência com "Wail", "She Said" e "Bellbottoms" encerra a noite de celebração. Celebração daquele barulho sujo, direto e cru, que embora ultimamente venha trajando uma roupagem bem mais dispendiosa, mas ainda assim irá sempre existir por ai. Celebração do tal do rock'n'roll.

The Jon Spencer Blues Explosion
Jon Spencer

Wander Wildner, Rogério Skylab e Júpiter Maçã @ SESC Campinas, Julho/2011

Visando as comemorações do famigerado dia do rock (que este que vos escreve a princípio não vê muito fundamento), o SESC Campinas armou uma programação no mínimo inusitada para este mês de Julho. Focado na mistura de música e elementos que causam repulsa e desconforto como o terror, o trash e afins, o Festival Rock'n'Horror trouxe a cidade alguns dos nomes de maior destaque do rock que se aproxima dessa estética no país, como o ex-lider do Camisa de Vênus, Marcelo Nova, o bardo gaúcho Wander Wildner (ex-Replicantes), Rogério Skylab, em volta com o requiém Skylab X, que encerra seu decágono como este personagem, e Júpiter Maçã, o cânone da psicodelia riograndense desde o final dos anos 90. A agenda contava ainda com outros eventos como oficinas de história em quadrinhos e música, um mini curso do mitológico José Mojica Marins, o Zé do Caixão, além da exibição de clássicos do cinema do gênero. Estive lá para acompanhar parte dos shows que rolaram de 14 a 16 de Julho.
Wander Wildner
Wander Wildner

Na turnê de divulgação do seu mais recente disco, lançado este ano, o belo Caminando e Cantando, que combina composições próprias com canções de outros compositores (como Jimi Joe, o homem-Stuart Gustavo Kaly e Julio Reny), Wander Wildner retornava a Campinas carregando uma verve mais folk, mas que ao vivo não consegue se distanciar do punk rock sujo de sua origem.

Tocando para um público razoável (ainda mais considerando uma noite de quinta-feira, dia 14) e uma aparelhagem de som bastante competente (ponto positivo para o SESC), fez um ótimo show, com um repertório que cobria praticamente toda a carreira solo, como os clássicos "Maverickão", "Bebendo Vinho", "Eu tenho uma camiseta escrita eu te amo" e "Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro". Apareceram também as tradicionais versões para músicas de Iggy Pop (destaque para "O Passageiro", música do video abaixo), Sex Pistols (sua letra de "Lonely Boy" em português), Graforréia Xilarmônica, Júpiter Maçã, Belchior (com a impagável versão de "A Palo Seco") e, é claro, Replicantes.



Rogério Skylab
Rogério Skylab
Na sexta-feira foi a vez de Rogério Skylab importunar o público presente, neste dia um pouco maior que no anterior, com seu repertório ultra-provocativo. Combinando um instrumental pesado com letras absurdas que senão parecem ser geradas a partir do mais completo acaso, beiram o insuportável (e até o ultrapassam as vezes, visitando desde a escatológia a cenas de violência e sexo explícito), talvez fosse o artista que melhor se encaixava na proposta do festival. Você que nunca assistiu a um show dele, quando vê aquele senhor franzino de cabelos longos já grisalhos no palco não imagina o teor das músicas que está prestes a ouvir.


"Música para Paralítico", "Tem cigarro aí?", "Carne Humana", "Por dentro, por fora", "Matador de Passarinho" e o hino "Fátima Bernardes Experiência" foram apenas algumas do longo repertório de quase uma hora e meia de show. Por último, uma homenagem a aquele que iria se apresentar no dia seguinte: "Eu e Minha Ex", do amigo Júpiter Maçã.


Júpiter Maçã
Júpiter Maçã
Tocando para um público incrivelmente menor (mesmo em plena noite de sábado), Júpiter Maça - isto é, Flavio Basso e banda (que incluia o folclórico Astronauta Pinguim nos teclados) - fez um show bem mais curto que dos dias anteriores.

Com meu atraso acabei perdendo a anunciada participação especial de Skylab, mas ainda cheguei a tempo de ouvir algumas pérolas, como "A Marchinha Psicótica do Dr. Soup" e a obrigatória "Lugar do Caralho". Júpiter ainda voltou para um bis, mas logo depois de mais uma canção deixou o palco ouvindo o coro da diminuta platéia pedindo por "Miss Lexotan" e outras de sua obra maior, A Sétima Efervescência.


  • Mais fotos dos shows no set do flickr.

Loomer toca My Bloody Valentine @ Asteroid Bar, 09/07/2011

Pois é, difícil imaginar outro que não o Loomer como grupo mais apto por essas bandas para representar ao vivo o nome maior do shoegaze, My Bloody Valentine.

Loomer toca My Bloody Valentine @ Asteroid bar

Mas é claro que isso não se tratava de uma tarefa simples. Trabalho que tomou um bom tempo de ensaio, a ponto de postergar os trabalhos do primeiro album do quarteto, e que resultou em um perceptível nervosismo até momentos antes de adentrarem o palco do Asteroid.

Loomer toca My Bloody Valentine @ Asteroid Bar

Entretanto, diferente dos clichês que rondam as bandas que optam pelo caminho do cover, eles deixaram bem claro que não iriam copiar as canções daquela que é uma das suas maiores influências. Nas palavras da própria Liege (baixista), o grupo tratou de frisar que eles iriam "loomeriar" o épico repertório shoegaze. Algo muito justo ao se pensar não só na admiração pelos ídolos britânicos mas no grau de complexidade e a insanidade técnica de Kevin Shields & cia.

E foi exatamente o que se viu e ouviu no Asteroid, versões daqueles clássicos tocados de olhares fixos ao chão (já que a timidez também parece ser outra característica compartilhada entre as duas bandas) no ferramental ruidoso que a Loomer dispõe (e que, convenhamos, não é pouco.)


No set de 12 músicas, não faltaram os canções obrigatórias, como "Only Shallow", "Lose My Breath", "You Never Should". A banda parecia se sentir em casa com as rápidas e barulhentas "Suesfine" e "Feed Me With Your Kiss", com destaque para a fusão dos vocais de Liege e Stefano. Também rolaram outras menos conhecidas, como "Honey Power" e "Lovelee Sweet Darlene", resgatada dos primórdios da discografia dos irlandeses. Para encerrar, uma arrebatadora versão de "You Made Me Realise".


Se ninguém é capaz de se igualar ao que o MBV fez um dia (como o próprio Kevin Shields parece crer), aquela aproximadamente uma hora de distorção e melodia foram suficientes para proporcionar largos sorrisos e realizar frações de um sonho que é ouvir aqueles que redefiniram o conceito de ruído dentro da música pop.

Loomer toca My Bloody Valentine @ Asteroid Bar


  • Mais fotos do show no set do flickr de Alessandra Luvisotto.